Uma conversa começa antes mesmo de qualquer som. Ela começa quando duas pessoas encontram uma forma de se compreender.
Para muitas pessoas surdas brasileiras, esse encontro acontece por meio da Libras. Uma língua capaz de expressar ideias, sentimentos, dúvidas, histórias e diferentes maneiras de enxergar o mundo.
No dia 23 de setembro, o Dia Internacional das Línguas de Sinais chama atenção para essa riqueza. Mais do que celebrar uma forma de comunicação, a data reconhece o direito de cada pessoa participar plenamente da sociedade.
Ainda assim, muitos olhares sobre Libras permanecem limitados. Há quem a considere um conjunto de gestos ou uma adaptação visual do português.
Mas Libras é muito mais do que isso.
Uma língua construída em comunidade
Libras é uma língua completa, com vocabulário e estrutura gramatical próprios. Ela não depende do português para organizar uma conversa ou transmitir uma ideia.
Durante a sinalização, as mãos fazem parte de um conjunto maior. Movimentos, expressões faciais, direção do olhar e uso do espaço também ajudam a construir significados.
As expressões do rosto, por exemplo, não servem apenas para demonstrar emoções. Elas podem indicar uma pergunta, uma negação, uma dúvida ou a intensidade de algo.
Isso mostra uma diferença importante entre um gesto isolado e uma língua. Um gesto pode ser compreendido apenas pelo contexto. Em Libras, os sinais fazem parte de um sistema compartilhado por uma comunidade.
Por isso, sinalizar não significa substituir cada palavra falada por um movimento. A construção das frases segue a lógica da própria Libras.
Esse é um dos motivos pelos quais ela não deve ser chamada de “linguagem de sinais”. Linguagem é uma capacidade ampla de comunicação. Libras é uma língua, assim como o português, o espanhol ou qualquer outro idioma.
Em 2002, a Lei nº 10.436 reconheceu Libras como meio legal de comunicação e expressão no Brasil.
A lei não criou essa língua. Ela reconheceu uma forma de comunicação desenvolvida e preservada pelas comunidades surdas ao longo de gerações.
Outra curiosidade está no próprio nome da data: Dia Internacional das Línguas de Sinais, no plural.
Isso acontece porque não existe uma língua de sinais universal. Cada país ou comunidade pode desenvolver sua própria língua, com sinais e estruturas diferentes.
Uma pessoa fluente em Libras, portanto, não compreenderá automaticamente todas as línguas de sinais. Da mesma forma, falar português não permite entender qualquer língua falada no mundo.
Até mesmo dentro do Brasil podem existir diferenças.
Alguns sinais variam conforme a região, a idade e o grupo social. Um conceito pode ser sinalizado de uma maneira em Goiás e receber outro sinal no Rio de Janeiro.
Essas variações não tornam um sinal certo e outro errado. Elas mostram que Libras está viva e acompanha as pessoas que a utilizam.
O mesmo acontece com os sotaques, as gírias e as expressões regionais do português. A diversidade faz parte do desenvolvimento de qualquer língua.
O Inventário Nacional da Diversidade Linguística reconhece essas variações regionais e geracionais. Elas também revelam a relação entre Libras, identidade e pertencimento.
Comunicação também é participação
Falar sobre Libras não é apenas explicar como uma língua funciona. É reconhecer o que acontece quando alguém encontra condições para se expressar e ser compreendido.
Ter acesso à comunicação interfere na participação em uma aula, consulta, reunião ou conversa familiar. Também permite fazer perguntas, compreender escolhas e tomar decisões com mais autonomia.
Quando uma pessoa surda encontra barreiras para se comunicar, o problema não está em sua capacidade. Muitas vezes, está em um ambiente que oferece apenas uma forma de comunicação.
Também é importante não imaginar que todas as pessoas surdas vivem a mesma experiência.
Nem toda pessoa surda utiliza Libras. Algumas se comunicam oralmente, fazem leitura labial ou utilizam diferentes recursos. Outras combinam essas possibilidades conforme o ambiente.
Não existe uma única maneira de ser uma pessoa surda. Por isso, inclusão também significa perguntar, ouvir e respeitar a preferência de cada indivíduo.
O Dia Internacional das Línguas de Sinais nos convida a ampliar a própria ideia de conversa. Comunicar não é apenas produzir ou escutar sons. É criar caminhos para que uma pessoa possa alcançar a outra.
Neste 23 de setembro, compartilhe este conteúdo e ajude mais pessoas a conhecerem Libras. Valorizar as línguas de sinais é reconhecer o direito de todos à comunicação, à participação e ao pertencimento.
Fontes:


